Todavia, apesar do contexto de seu surgimento lhe colocar no embate entre duas correntes musicais, o tropicalismo ia bastante além e se firmava pela autenticidade de suas múltiplas características, que denotavam ao movimento tanto uma ruptura com os padrões constituídos, quanto uma revisão estética da MPB. E é baseado no estabelecimento de um novo diálogo entre vanguarda e mercado que os artistas, fortemente influenciados por diversos movimentos artísticos – como a pop’art – passaram a produzir canções com apelo estético, comercial e político.
Eles reconheciam a força da engrenagem por de trás da indústria cultural e a utilizavam tanto para tirar proveito de suas técnicas de distribuição quanto para modernização de suas produções, mesmo que ainda resguardassem certa independência em relação à estrutura mercadológica. Aliás, a modernidade, tal qual vista em movimentos musicais anteriores, era um dos temas centrais dos tropicalistas e pautava seu projeto estético, cujo intuito era o de fazer com que o Brasil desse “um passo à frente”, conforme defendia Caetano. No entanto, cabe ressaltar que essa modernidade não era a mesma defendida pelos esquerdistas de outrora, que viam no desenvolvimento industrial e econômico uma forma de superação do atraso do Brasil. Ao contrário, a modernidade tropicalista coabitava com os arcaísmos culturais brasileiros, transformando-os em relíquias da cultura nacional; isto é, ela se estabelecia justamente pelo reconhecimento dos elementos mais “atrasados” e buscava uma forma de integrá-los à nova estética para criar algo peculiar, absurdo, surreal, mas brasileiro, acima de tudo.
E esta interação entre moderno e arcaico será fundamental para o tropicalismo, visto que elucidará as contradições de se viver em um país marcado pelo desenvolvimento desigual do capitalismo periférico durante a Guerra Fria. A Tropicália se focará, então, em produções estéticas que coloquem, lado a lado, as contradições do Brasil e também levantará outras dicotomias, como nacional X estrangeiro, sagrado X profano, erudito X popular, orgânico X tecnológico, entre outras, aproximando-se, assim, do movimento modernista de 1922 em sua vertente antropófaga.





