É sangue mesmo, não é mertiolate.
E todos querem ver
E comentar a novidade.
É tão emocionante um acidente de verdade. Estão todos satisfeitos
Com o sucesso do desastre: Vai passar na televisão.
Por gentileza, aguarde um momento.
Sem carteirinha, não tem atendimento –
Carteira de trabalho assinada, sim, senhor.
Olha o tumulto: façam fila por favor.
Todos com a documentação.
Quem não tem senha, não tem lugar marcado.
Eu sinto muito, mas já passa do horário.
Entendo seu problema, mas não posso resolver:
É contra o regulamento, está bem aqui, pode ver. Ordens são ordens.
Em todo o caso, já temos a sua ficha.
Só falta o recibo comprovando residência.
P’rá limpar todo esse sangue, chamei a faxineira – E agora eu já vou indo senão eu perco a novela
E eu não quero ficar na mão.
RUSSO, Renato. Metrópole. 1986.
As composições da banda Legião Urbana fazem parte do cenário do Rock brasileiro dos anos 1980, que tinham como principal objetivo
Leia o trecho da composição a seguir.
Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não para.
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para, não, não para.
CAZUZA. O tempo não para. Álbum O tempo não para. Gravadora Universal Music Brasil, 1989. Faixa 6. (Adaptado).
Datada de 1989, a composição de Cazuza integra o repertório do rock nacional. Atingindo um público amplo, essa composição exprime uma relação entre a vivência dos jovens e a apreensão de seu tempo, quando
Pais e Filhos
Estátuas, e cofres, e paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu
Hum, ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender
Dorme agora
Hum, hum
É só o vento lá fora
Quero colo
Vou fugir de casa
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo
Tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três
Meu filho vai ter nome de santo
Quero o nome mais bonito
É preciso amar
As pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade, não há
Me diz por que que o céu é azul
Explica a grande fúria do mundo
São meus filhos que tomam conta de mim
Eu moro com a minha mãe, mas meu pai vem me visitar
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais
Eu moro com meus pais
É preciso amar
As pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade, não há
Sou uma gota d’água
Sou um grão de areia
Você me diz que seus pais não o entendem
Mas você não entende seus pais
Você culpa seus pais por tudo
Isso é um absurdo
São crianças como você
O que você vai ser
Quando você crescer?
(Renato/Legião Urbana. Pais e Filhos. In: RUSSO, As quatro Estações. Rio de Janeiro: EMI, 1989)
Na terceira estrofe da canção “Pais e Filhos” (“Quero colo... só vou voltar depois das três”), os versos aparentemente independentes uns dos outros significam que
Leia a letra da canção “Até quando esperar”, da banda de punk rock brasileira Plebe Rude, lançada no ano de 1986 e que integra o disco O Concreto Já Rachou.
Até quando esperar
Não é nossa culpa
Nascemos já com uma benção
Mas isso não é desculpa
Pela má distribuição
Com tanta riqueza por aí
Onde é que está, cadê sua fração?
Até quando esperar?
E cadê a esmola
Que nos damos sem perceber
Que aquele afortunado
Poderia ter sido você
Até quando esperar?
A plebe ajoelhar esperando ajuda de Deus
Posso vigiar seu carro, te pedir cigarro,
Engraxar seu sapato?
Ao propor a crítica presente na canção, aquele grupo musical desempenha um importante papel na sociedade, que é:
Ideologia
Meu partido
É um coração partido
E as ilusões
Estão todas perdidas
Os meus sonhos
Foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito
Ah! Eu nem acredito
Que aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Frequenta agora
As festas do Grand Monde
Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
[...]
CAZUZA. Ideologia. Rio de Janeiro: Polygram do Brasil Ltda, 1988. 1 disco
Conforme definição do Dicionário Houaiss, ideologia é uma ciência “que atribui a origem das ideias humanas às percepções sensoriais do mundo externo”. Com base nessa definição do dicionário, é correto deduzir-se do texto de Cazuza que a palavra foi utilizada com a intenção de
Leia.
Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo Sem saber o calibre do perigo Eu não sei da onde vem o tiro
Por que caminhos você vai e volta? Aonde você nunca vai? Em que esquinas você nunca para? A que horas você nunca sai? Há quanto tempo você sente medo? Quantos amigos você já perdeu? Entrincheirado, vivendo em segredo E ainda diz que não é problema seu
E a vida já não é mais vida No caos ninguém é cidadão As promessas foram esquecidas Não há Estado, não há mais nação Perdido em números de guerra Rezando por dias de paz Não vê que a sua vida aqui se encerra Com uma nota curta nos jornais
Os Paralamas do Sucesso. O Calibre. In: Longo Caminho. [CD] Rio de Janeiro: EMI, 2002.
Sobre a abordagem sociológica a respeito da violência contemporânea, assinale a alternativa incorreta.
Todo dia o sol da manhã vem e lhe desafia.
Trazendo sonhos pro mundo, quem já não o queria
Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia.
E a cidade que tem braços abertos num cartão postal
Com punhos fechados na vida real
Lhe nega oportunidades
Mostra a face do mal
Alagados Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Nem das antenas de TV
A arte de viver na fé só não sabe fé em quê
RIBEIRO, Felipe De Nobrega B.; SILVA, Joao Alberto Barone; VIANNA, Herbert. Alagados. Gravação: Os Paralamas do Sucesso, 1986.
Fenômenos socioeconômicos e culturais influenciaram a urbanização brasileira.
Considerando-se o poema da canção Alagados e os conhecimentos sobre o atual estágio da urbanização nacional, pode-se concluir:
Ideologia
Meu partido É um coração partido E as ilusões Estão todas perdidas Os meus sonhos Foram todos vendidos Tão barato que eu nem acredito Ah! Eu nem acredito Que aquele garoto Que ia mudar o mundo Mudar o mundo Frequenta agora As festas do Grand Monde Meus heróis Morreram de overdose Meus inimigos Estão no poder Ideologia! Eu quero uma pra viver Ideologia! Eu quero uma pra viver O meu prazer Agora é risco de vida Meu sex and drugs Não tem nenhum rock 'n' roll Eu vou pagar A conta do analista Pra nunca mais Ter que saber Quem eu sou Ah! Saber quem eu sou
Pois aquele garoto Que ia mudar o mundo Mudar o mundo Agora assiste a tudo Em cima do muro Em cima do muro! Meus heróis Morreram de overdose Meus inimigos Estão no poder Ideologia! Eu quero uma pra viver Ideologia! Pra viver Pois aquele garoto Que ia mudar o mundo Mudar o mundo Agora assiste a tudo Em cima do muro Em cima do muro Meus heróis Morreram de overdose Meus inimigos Estão no poder Ideologia! Eu quero uma pra viver Ideologia! Eu quero uma pra viver Ideologia! Pra viver Ideologia! Eu quero uma pra viver
Disponível em: https://www.letras.mus.br/cazuza/43860/. Acesso em: 09 out. 2019.
O termo “ideologia” é um dos mais abordados na história da filosofia e da sociologia. Desde o surgimento da palavra e seu primeiro significado, com Destutt de Tracy, ela recebeu várias interpretações, entre as quais as de Marx e posteriormente Mannheim, até chegar a Ricouer e outros. A ideologia já foi concebida como falsa consciência, sistema de pensamento ilusório, pensamento valorativo, concepção metafísica pré-científica, visão de mundo, etc. A letra da música “ideologia” tematiza esse termo. A partir das concepções existentes sobre esse termo, podemos dizer que a ideologia, de acordo com a letra da música, se aproxima mais da concepção:
Faroeste caboclo
− Não tinha medo o tal João de Santo Cristo.
Era o que todos diziam quando ele se perdeu.
Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
(...)
Ele queria sair para ver o mar
E as coisas que ele via na televisão
Juntou dinheiro para poder viajar
De escolha própria, escolheu a solidão
(...)
E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
(...)
Dizia ele: − Estou indo pra Brasília
Neste país lugar melhor não há.
(...)
E João aceitou sua proposta
E num ônibus entrou no
Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
(...)
E João não conseguiu o que queria quando veio pra
Brasília, com o diabo ter
Ele queria era falar pro presidente
Pra ajudar toda essa gente
Que só faz sofrer.
Renato Russo, “Que país é este?”, EMI, 1987.
O enredo do filme Faroeste caboclo, inspirado na letra da canção de Renato Russo, foi contado muitas vezes na literatura brasileira: o retirante que abandona o sertão em busca de melhores condições de vida.
A existência de retirantes está associada fundamentalmente à seguinte característica da sociedade brasileira:
Leia o texto abaixo e, em seguida, responda o que se pede:
“Na cidade do Rock em Jacarepaguá mil jovens se comprimiam enquanto acontecia a apresentação do grupo Barão Vermelho na noite de terça-feira, 15 de janeiro de 1985. Muitos estavam vestidos de verde e amarelo ou empunhavam bandeiras do Brasil. Era o primeiro Rock in Rio e havia um intenso clima de brasilidade no palco e na multidão. Aqueles milhares e milhares de jovens vibraram e choraram de emoção, quando após interpretar “Pro dia nascer feliz”, Cazuza deu sua mensagem final: ‘Que o dia nasça feliz para todo mundo amanhã. Em um Brasil novo, uma rapaziada esperta. Valeu’
(NOBLAT, Ricardo).
http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2015/01/pro-dia-nascer-feliz.html
A mensagem final de Cazuza na primeira edição do Rock in Rio, em 1985, remete à ideia de um “Brasil novo”, que estava sendo construído no contexto da transição da ditadura à democracia no Brasil. Sobre o contexto mais amplo dos anos 1980, é CORRETO afirmar que:
INSTRUÇÃO: Responder à questão a partir da leitura e análise das letras das músicas a seguir.
GERAÇÃO COCA-COLA - Letra: Renato Russo
Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês nos empurraram
Com os enlatados dos USA, de 9 a 6.
Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês.
Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola.
Depois de vinte anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser
Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então, vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis (...)
QUE PAÍS É ESSE? - Letra: Renato Russo
Nas favelas, no senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse? (...)
As letras das músicas "Geração Coca-cola" e "Que país é esse?", da banda de rock Legião Urbana, referem-se a um contexto particular de transformações na política, na sociedade e na economia brasileira. A sensação de frustração frente às promessas de mudança e de maior participação popular e estudantil na política, presente nas letras dessas músicas, refere-se a um determinado contexto político. Qual é esse contexto?
Os seres humanos são formados socialmente. A sociologia aborda esse processo de constituição social dos seres humanos com o termo “socialização”. Desde Marx e Durkheim, passando pela escola funcionalista até chegar aos sociólogos contemporâneos, esse é um tema fundamental da sociologia, mesmo sem usar esse termo. Alguns sociólogos atribuem um caráter repressivo e coercitivo ao processo de socialização em determinadas épocas e sociedades. A socialização, na sociedade moderna, seria diferente da que ocorre em outras sociedades. A letra da música a seguir apresenta elementos desse processo de socialização moderna.
PRESSÃO SOCIAL Plebe Rude
Há uma espada sobre a minha cabeçaÉ uma pressão social que não quer queeu me esqueçaQue tenho que estudarque eu tenho que trabalharque tenho que ser alguémnão posso ser ninguém Há uma espada sobre a minha cabeçaÉ uma pressão social que não quer queeu me esqueça Que a minha vitória é a derrota de alguém e o meu lucro é a perda de alguém que eu tenho que competirque eu tenho que destruir
Há uma espada sobre a minha cabeçaÉ uma pressão social que não quer queeu me esqueça Que eu tenho que conformarconformar é rebelarque eu tenho que rebelarrebelar é conformar E quem conforma o sistema engolee quem rebela o sistema come Disponível em: . Acesso em: 16/03/2016
A letra da música apresenta o processo de
Leia a letra da música a seguir.
A melhor banda de todos os tempos da última semana
Quinze minutos de fama
Mais uns pros comerciais
Quinze minutos de fama
Depois descanse em paz
O gênio da última hora
É o idiota do ano seguinte
O último novo-rico
É o mais novo pedinte
A melhor banda de todos os tempos da última semana
O melhor disco brasileiro de música americana
O melhor disco dos últimos anos de sucessos do passado
O maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores fracassos
Não importa a contradição
O que importa é televisão
Dizem que não há nada a que você não se acostume
Cala a boca e aumenta o volume então
As músicas mais pedidas
Os discos que vendem mais
As novidades antigas
Nas páginas dos jornais
Um idiota em inglês
Se é idiota, é bem menos que nós
Um idiota em inglês
É bem melhor que eu e vocês
A melhor banda de todos os tempos da última semana
O melhor disco brasileiro de música americana
O melhor disco dos últimos anos de sucesso do passado
O maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores fracassos
Não importa a contradição
O que importa é televisão
Dizem que não há nada a que você não se acostume
Cala a boca e aumenta o volume então
Os bons meninos de hoje
Eram os rebeldes da outra estação
O ilustre desconhecido
É o novo ídolo do próximo verão.
TITÃS. Disponível em: . Acesso em: 21 mar. 2019.
A mensagem transmitida pela música aponta para um dos temas fundamentais da sociologia, que foi desenvolvido por vários pensadores, entre eles Theodor Adorno e Max Horkheimer. Nesse sentido, a mensagem remete
TEXTO I
Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo [...]. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas.
RODRIGUES, N. À sombra das chuteiras imortais. São Paulo: Cia. das Letras, 1993.
TEXTO II
A melhor banda de todos os tempos da última semana
As músicas mais pedidas
Os discos que vendem mais
As novidades antigas
Nas páginas dos jornais
Um idiota em inglês
Se é idiota, é bem menos que nós
Um idiota em inglês
É bem melhor do que eu e vocês
A melhor banda de todos os tempos da última semana
O melhor disco brasileiro de música americana
O melhor disco dos últimos anos de sucessos do passado
O maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores fracassos
TITÃS. A melhor banda de todos os tempos da última semana. São Paulo: Abril Music, 2001 (fragmento).
O verso do Texto II que estabelece a adequada relação temática com “o nosso vira-latismo”, presente no Texto I, é:
Texto I
A televisão
(Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Tony Belloto)
A televisão
Me deixou burro
Muito burro demais
Oh! Oh! Oh!
Agora todas coisas
Que eu penso
Me parecem iguais
Oh! Oh! Oh!
O sorvete me deixou gripado
Pelo resto da vida
E agora toda noite
Quando deito
É boa noite, querida
Oh! Cride, fala pra mãe
Que eu nunca li num livro
Que o espirro
Fosse um vírus sem cura
Vê se me entende
Pelo menos uma vez
Criatura!
Oh! Cride, fala pra mãe!
A mãe diz pra eu fazer
Alguma coisa
Mas eu não faço nada
Oh! Oh! Oh!
A luz do sol me incomoda
Então deixa
A cortina fechada
Oh! Oh! Oh!
É que a televisão
Me deixou burro
Muito burro demais
E agora eu vivo
Dentro dessa jaula
Junto dos animais
Oh! Cride, fala pra mãe
Que tudo que a antena captar
Meu coração captura
Vê se me entende
Pelo menos uma vez
Criatura!
Oh! Cride, fala pra mãe!
Titãs. Televisão. Lp. Gravadora WEA, 1985.
Texto II
Estorvo (fragmento)
Vejo tumulto defronte ao edifício do meu amigo. Aglomeração, um camburão, duas joaninhas, um rabecão, vários carros de reportagem, guardas desviando o trânsito. No meio do povo, compreendo que houve um crime, alguém morreu esfaqueado e estrangulado. Vem chegando a sirene de um segundo camburão, e o empurra-empurra acaba por me levar ao miolo do acontecimento. Uma corda vermelha isola a calçada do velho prédio, formando uma espécie de ringue. A televisão entrevista o zelador sob a marquise da portaria. Deve estar ruim de filmar, pois o zelador olha para o chão e não fala direito, parece um condenado. Penso que é ele o criminoso, mas em seguida me convenço de que está somente muito envergonhado pelo seu edifício. O repórter pergunta se a vítima costumava receber rapazes, e o zelador faz sim com a cabeça, mais confessando que assentindo. A entrevista é prejudicada por uma baixinha com cara de índia e lenço na cabeça, que se desvencilha de um policial e investe contra o zelador, gritando “diga que conhece meu filho, miserável!”. O policial levanta a índia baixinha e deposita-a fora do cordão de isolamento. Ela passa outra vez sob o cordão e agora se dirige ao público. Diz “não tem televisão aí?” e diz “ninguém vai me entrevistar?”. Um rapaz que se apresenta como repórter do Diário Vigilante pergunta o que fazia o suspeito no local do crime. Ela diz “que suspeito o quê” e “que local do crime o quê”, e diz “meu filho veio me ver, foi detido entrando no prédio, se fosse suspeito estaria fugindo”, e diz “onde é que já se viu suspeito fugir para dentro?”. Sem mais nem mais, começo a ficar a favor da mãe índia. O do Diário Vigilante vai fazer outra pergunta, mas ela o interrompe e diz que trabalha no 204 há quinze anos, que todo mundo sabe quem ela é, que aquele miserável ali conhece o filho dela e não o defende porque tem preconceito de cor. Vai atacar de novo o zelador, mas é suspensa pelo policial. Outro repórter de tevê indaga ao zelador se a vítima era homossexual. O zelador resmunga “isso aí eu não sei porque nunca vi”. A índia responde à Rádio Primazia que prenderam o filho porque ele estava sem documento. Diz “meu filho estava voltando da praia, não é crime ir na praia, ninguém vai na praia com carteira de trabalho metida no calção”. Um sujeito atrás de mim diz que também é de jornal e pergunta “afinal a bichona era artista ou o quê?”. Ela responde “a bichona sei lá, parece que era professor de ginástica”. Aproxima-se o repórter da TV Promontório dizendo “ouvimos também a mãe do principal suspeito”. Aí a índia perde a razão, agarra as lapelas do repórter e desata a chorar no microfone e berrar “ele não é criminoso!, meu filho é um moço decente!”, mas o cameraman, que está trepado no capô da camionete, grita “não valeu, não gravou nada, troca a bateria!”. A índia para de chorar, olha para o setor da imprensa e diz “imagine meu filho, que até é doente, estrangulando um professor de ginástica”. Volta o repórter da TV Promontório e pede-lhe para repetir a fala anterior, que ele achou bem forte.
BUARQUE, Chico. Estorvo. São Paulo: Cia. das Letras, 1991.
Os textos I e II possibilitam a reflexão sobre a TV como meio de comunicação. Os enfoques de cada um desses textos são, respectivamente, sobre:
Gabarito
“Fizeram testemunhos de um país com perspectivas de mudar, ainda que isso não se tenha realizado conforme muitos esperavam [...]. Se, no papel, os direitos civis foram recuperados, e os sociais, ampliados, houve roqueiros que deram voz a reivindicações de que era preciso transpor aqueles direitos para o cotidiano.”
(MARQUES, 2018. Adaptado)
Com base no contexto histórico da redemocratização e no papel da cultura jovem nos anos 1980 no Brasil, responda:
a) Explique como o rock nacional da década de 1980 atuou como veículo de expressão política e social durante o fim da Ditadura Militar.
b) Cite duas características temáticas ou comportamentais presentes nas letras de bandas oitentistas (como Legião Urbana, Titãs ou Plebe Rude) que refletiam os anseios da juventude urbana da época.